Há tres dias tem nevado em Viena.
Uma mistura de neve, granizo e chuva, devido ao calor da cidade.
Entretanto, hoje, justo numa
segunda feira, a neve cai com mais intensidade, logo cedo no caminho da escola.
Vou enfrentanto aqueles flocos
flutuantes ate o ponto do bonde e depois ate a escola!
Uau!
Quando neva nao é tao frio. O
frio vem depois, quando o sapato fica molhado por cima e a gente comeca a
sentir que o pé esta dentro de um congelador, pois as botas normalmente mantem
a temperatura do pé, seja ela qual for.
Ver a neve, sentir a neve, sempre
foi um sonho, muitas vezes dispensado, deixado de ser pensado, para uma
cearense; entretanto agora eu estou aqui, sentindo e vivendo o cotidiano do
inverno vienense.
A neve é linda! Principalmente
nas fotos e nos cartoes postais. Conviver com a neve é que é dificil!
Acordar seis da manha e olhar
pela janela e perceber que ainda é noite escura. Ver o chao branquinho e saber
que la fora tá um frio daqueles, da vontade de voltar para debaixo da coberta e
nao sair até o sol dar o ar da sua graca.
A responsabilidade nos chama e la
vamos nos! Meias quentes, botas de inverno, gorro, cachecol, casaco, luvas e no
final ainda jogamos por cima toda a bagagem da bolsa, pois o dia será normal,
com direito a compras, escola, trabalho, correria… quer dizer, patinacao pelas
calcadas, umas com sal e outras com pedrinhas.
Sinceramente nao sei qual a pior.
O sal acaba os sapatos e as pedrinhas ficam entravadas nos sulcos das solas…
brrrrrrrr, aquela sensacao de arrepio interno! Esfrego o pe na intensao de
tirar uma e entra dez! Vale um palavrao bem alto para relaxar!
Outra vantagem! Os passantes
podem ate imaginar que se trata de um chingamento, mas nao vao entender… adoro!
A neve, quando cai no rosto,
arde, ate ficarmos com as bochechas e o nariz gelado! Entao o nariz comeca a
escorrer e haja lencinho de papel! E a falta de tato? É um tal de bota e tira
luva que nao aguento. Todo inverno rasgo no minimo uma. Quando nao jogo fora
por nao cumprir a contento seu papel: esquentar minhas maos!
As criancas parecem uns pinguins
ou um pacote bem feito! Isso dá um trabalho! E quando temos aqueles pirralhos
teimosos, o meu por exemplo, que nao gosta de gorro, cachecou e luva?!
Enlouqueco pensando no resfriado!
Mesmo diante de tudo isso, adoro
a neve!
Sabe aquele amor, aquela imensa
paixao que me deixa exitada, feliz, so em saber: está nevando! Corro para a
janela e fico ali, hipinotisada pelo baile dos flocos. Eles nao caem igual às
gotas d’agua, eles flutuam até tocar o solo. Parecem dancar valsa. A suavidade
com que pousam em nos é verdadeiramente impressionante. Eles nao querem nos
incomodar.
E vao deixando tudo branquinho.
E nao se incomodam em derreterem
imediatamente quando tocam o asfalto, aquecido pelos veículos. Os que caem nas
calcadas sao pisoteados pelos passos rapidos e costumeiro dos vienenses.
Os telhados vao ficando brancos.
Os bancos vao ficando brancos.
Os jardins, ja preparados, e o
gramado… tudo vai ficando imaculadamente branco. Um branco que nao agride aos
olhos quando o sol aparece.
Para uma cearense, acostumada com
sol, calor e sal, so me restou o sal!
Nao tem problema.
Fico no ponto do bonde olhando
para o ceu de boca aberta, tentando que os flocos caiam na minha boca! Pareco
uma maluca….
E as pessoas que testemunham isso
nao entendem que, para o inverno, sou uma crianca de quatro anos, curiosa de
novas esperiencias, feliz por brincar com aquele gelado, motivo de alegria,
pois somos muito gratos pela água!
A neve é uma festa para as
criancas mas poucos adultos se lembram de brincar. Estao muito ocupados e,
afinal, ja sao adultos, preocupados, estressados, responsaveis, apressados,
trabalhadores. Os velhos ja viram tudo, estao cansados, nada mais lhes admira!
Quem disse que ser adulto é
sinonimo de ser chato? Quem disse que velhice é sinonimo de falta de admiracao
pelo mundo!
Entao continuo com meus cinco
anos de idade mental no inverno. Continuo preferindo pisar nas montanhas de
neve, mesmo correndo o risco de encontrar um bombinha de cachorro, do que
correr pelas calcadas salgadas ou empedradas.
Adoro fazer bolinhas de neve e
jogar neles, que ficam logo aborrecidos. Entao nao sei quem é mais „adulto“!
Se tivermos bastante neve vou
fazer estrelinha neste inverno! Devidamente acompanhada de um „adulto“ para
ajudar a me levantar depois. Risos. É o que
mais tenho para oferecer no inverno.
Mantenho meus cinco anos de
idade, sob os protestos dos meus filhos, inclusive o mais novo, que nao entende
minha alegria de viver assim, com a inocencia e a curiosidade, apaixonada pelo
desconhecido, mesmo que este desconhecido esteja sempre presente.
Hoje é um dia todinho novo. Entao
é desconhecido. E me trouxe neve, muita neve.
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