segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

UMA CEARENSE E A NEVE


 

 
 
 
Há tres dias tem nevado em Viena. Uma mistura de neve, granizo e chuva, devido ao calor da cidade.

Entretanto, hoje, justo numa segunda feira, a neve cai com mais intensidade, logo cedo no caminho da escola.

Vou enfrentanto aqueles flocos flutuantes ate o ponto do bonde e depois ate a escola!

Uau!

Quando neva nao é tao frio. O frio vem depois, quando o sapato fica molhado por cima e a gente comeca a sentir que o pé esta dentro de um congelador, pois as botas normalmente mantem a temperatura do pé, seja ela qual for.

Ver a neve, sentir a neve, sempre foi um sonho, muitas vezes dispensado, deixado de ser pensado, para uma cearense; entretanto agora eu estou aqui, sentindo e vivendo o cotidiano do inverno vienense.

A neve é linda! Principalmente nas fotos e nos cartoes postais. Conviver com a neve é que é dificil!

Acordar seis da manha e olhar pela janela e perceber que ainda é noite escura. Ver o chao branquinho e saber que la fora tá um frio daqueles, da vontade de voltar para debaixo da coberta e nao sair até o sol dar o ar da sua graca.

A responsabilidade nos chama e la vamos nos! Meias quentes, botas de inverno, gorro, cachecol, casaco, luvas e no final ainda jogamos por cima toda a bagagem da bolsa, pois o dia será normal, com direito a compras, escola, trabalho, correria… quer dizer, patinacao pelas calcadas, umas com sal e outras com pedrinhas.

Sinceramente nao sei qual a pior. O sal acaba os sapatos e as pedrinhas ficam entravadas nos sulcos das solas… brrrrrrrr, aquela sensacao de arrepio interno! Esfrego o pe na intensao de tirar uma e entra dez! Vale um palavrao bem alto para relaxar!

Outra vantagem! Os passantes podem ate imaginar que se trata de um chingamento, mas nao vao entender… adoro!

A neve, quando cai no rosto, arde, ate ficarmos com as bochechas e o nariz gelado! Entao o nariz comeca a escorrer e haja lencinho de papel! E a falta de tato? É um tal de bota e tira luva que nao aguento. Todo inverno rasgo no minimo uma. Quando nao jogo fora por nao cumprir a contento seu papel: esquentar minhas maos!

As criancas parecem uns pinguins ou um pacote bem feito! Isso dá um trabalho! E quando temos aqueles pirralhos teimosos, o meu por exemplo, que nao gosta de gorro, cachecou e luva?! Enlouqueco pensando no resfriado!

Mesmo diante de tudo isso, adoro a neve!

Sabe aquele amor, aquela imensa paixao que me deixa exitada, feliz, so em saber: está nevando! Corro para a janela e fico ali, hipinotisada pelo baile dos flocos. Eles nao caem igual às gotas d’agua, eles flutuam até tocar o solo. Parecem dancar valsa. A suavidade com que pousam em nos é verdadeiramente impressionante. Eles nao querem nos incomodar.

E vao deixando tudo branquinho.

E nao se incomodam em derreterem imediatamente quando tocam o asfalto, aquecido pelos veículos. Os que caem nas calcadas sao pisoteados pelos passos rapidos e costumeiro dos vienenses.

Os telhados vao ficando brancos.

Os bancos vao ficando brancos.

Os jardins, ja preparados, e o gramado… tudo vai ficando imaculadamente branco. Um branco que nao agride aos olhos quando o sol aparece.

Para uma cearense, acostumada com sol, calor e sal, so me restou o sal!

Nao tem problema.

Fico no ponto do bonde olhando para o ceu de boca aberta, tentando que os flocos caiam na minha boca! Pareco uma maluca….

E as pessoas que testemunham isso nao entendem que, para o inverno, sou uma crianca de quatro anos, curiosa de novas esperiencias, feliz por brincar com aquele gelado, motivo de alegria, pois somos muito gratos pela água!

A neve é uma festa para as criancas mas poucos adultos se lembram de brincar. Estao muito ocupados e, afinal, ja sao adultos, preocupados, estressados, responsaveis, apressados, trabalhadores. Os velhos ja viram tudo, estao cansados, nada mais lhes admira!

Quem disse que ser adulto é sinonimo de ser chato? Quem disse que velhice é sinonimo de falta de admiracao pelo mundo!

Entao continuo com meus cinco anos de idade mental no inverno. Continuo preferindo pisar nas montanhas de neve, mesmo correndo o risco de encontrar um bombinha de cachorro, do que correr pelas calcadas salgadas ou empedradas.

Adoro fazer bolinhas de neve e jogar neles, que ficam logo aborrecidos. Entao nao sei quem é mais „adulto“!

Se tivermos bastante neve vou fazer estrelinha neste inverno! Devidamente acompanhada de um „adulto“ para ajudar a me levantar depois. Risos. É o que  mais tenho para oferecer no inverno.

Mantenho meus cinco anos de idade, sob os protestos dos meus filhos, inclusive o mais novo, que nao entende minha alegria de viver assim, com a inocencia e a curiosidade, apaixonada pelo desconhecido, mesmo que este desconhecido esteja sempre presente.

Hoje é um dia todinho novo. Entao é desconhecido. E me trouxe neve, muita neve.

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