sábado, 1 de dezembro de 2012

FOLHAS AO VENTO






O verao teima por nao deixar espaco para o outono. Ja estamos em outubro e o calor é de matar.
Gosto do frio.
Hoje estou em casa, com meu pequeno que ja chegou da creche e agora assiste televisao enquanto preparo nosso almoco. Um dia normal, de pessoas normais, numa semana normal, numa vida normal.
Depois do almoco, aproveitei para fumar no meu lugar preferido: a janela.
O vento frio chegou do noroeste provocou um baile de folhas secas que subem e pulam sobre o predio onde moro. Fico ali, facinada pelo espetaculo.
Fixo minha observacao em uma unica folha: ela sube, desce, roda, vem em direcao a minha janela, volta para a direita, cai; flutua novamente e parece valsar ao som de alguma obra de Strauss. Pena que nao ha a possibilidade de colocar uma musica de fundo neste bale da folha, somente o som das proprias folhas sendo levadas, reviradas, embaralhadas pelo vento.
A minha escolhida vem novamente em minha direcao. Estendo a mao infantilmente para toca-la, na intencao de te-la comigo, porem ela se vai, subindo, subindo, e para me satisfazer e em sinal de despedida, faz mais uma volta em torno de si mesma e se erge acima dos telhados, das chamines, voa por cima de tudo e desaparece do meu raio de visao seguindo sua viagem sem volta.
(...)
Faz tempo que o cigarro terminou e eu fiquei aqui divagando... olhando as folhas em seu bailado.  Espero que a neve chegue logo. Acho lindo quando tudo fica branquinho e o sol brilha refletindo as gotas de agua congeladas. Sao bilhoes de brilhantes ali, espalhados pelo chao. Preciosas gotas de agua, agua da vida, que em pequeninos flocos caem do ceu e puras, imaculadas, transformam os parques, as casas, e ruas... com uma aura de brancura.
Contudo ainda nao nevou este ano. Ainda esta tudo cinza e as vezes chove. O inverno ainda nao chegou.
Ainda tenho tempo para fazer mais alguma coisa.
Olhei novamente para a árvore, majestosa com seus 60 metros de altura ou mais... em sua sabedoria largou todas as folhas para sobreviver ao inverno e se fazer bonita na primavera. Ela se recolhe para o interior de sua seiva, mantem o caule a velha casca grossa, manto para o frio, trabalha suas raizes e programa seus frutos. Esta ali, naquele lugar ha quantos anos? Nao faco ideia, mais de cinquenta com certaza. Fixa suas raizes na terra e luta pela sobrevivencia, mesmo legando a propria sorte suas crias, sua beleza se larga tambem, se solta.
Aquela pequenina folha apesar de seca vai para uma viagem facinante, ver alem das fronteiras do predio onde brotou. O vento agora lhe conduz a uma aventura sem volta, pois ja nao pertence mais a arvore. Esta livre, independente, sozinha...
Com seus poucos recursos busca aproveitar ao maximo a grande aventura de voar e perceber novos horizontes.
Fazemos a mesma coisa, largamos nossos filhos... vamos deixando marcas e vamos marcados para sempre... em busca de uma primavera, de um renascimento, de renovacao.
Lagamos o caminho seguro, certo, conhecido e nos jogamos nas incertezas da nova trilha. Uma aventura, a grande aventura de viver.
Estou aqui, olhando a vida atraves desta janela, olhando para minha vida, para o meu passado, para o meu futuro. Nenhum dos dois me interessa mais. Eu quero viver o meu presente. Eu quero viver como aquela folha, ao sabor do vento, subindo, rodopiando, bailando ate encontrar novamente o meu chao, ... e quando isso acontecer será para sempre. Estarei morta.

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