sábado, 26 de maio de 2012

Deletando magoas






Uma boa limpeza pode demonar anos para comecar e longo tempo para terminar. A gente fica lembrando dos detalhes, dos momentos bons ou ruins, mas momentos de nossa jornada que parecem reviverem com nossas quinquilharias. Lembrancas sao sempre lembrancas, so existem em nossa mente, mas sobrevivem em nossos sentimentos. E chave da porta das lembrancas estao guardadas pelos cantos de gavetas, dentro de caixas de sapatos, cujos sapatos ja se foram há tempos, em páginas daquele livro que nao terminamos de ler, em cadernos guardados “de lembranca” principalmente quando tem o autografo de todos os colegas de curso, e principalmente no estojo especial das lembrancas denominado album de fotografias.
As fotografias sao chaves por excelencia e so para lembrar dos momentos instantaneados naquele pedacinho de papel nos as guardamos em belos albuns. Reliquias de Familia. Algumas sao cortadas, ou eram quando o casal se separava, o namoro terminava... e se devolvia a foto do ex: antigo nao? Pois era assim no tempo de minha mae: a celebre frase: “Me devolve as fotos que te entrego as cartas”; caso esta ameaca nao surtisse efeito, tudo viraria cinzas e com estas, o romance estava definitivamente acabado. Bem, mas as lembrancas permaneciam, talvez trancadas para sempre dentro de um coracao ferido.
Contudo somos feitos de carne, ossos e sentimentos e nosso passado muitas vezes nos parece mais vivo que nosso presente. Esta é a razao de muitos sabios aconcelharem a se viver no presente, largar o passado, deixar la tras... por que?
O porque eu realmente fico a me indagar. Se o passado incomoda, se as tristes lembrancas incomodam, entao as boas tambem incomodam? Se o passado nao existe mais, entao por que guardamos as lembrancas? Quaisquer que sejam, boas ou ruins, se deixarem de existir, nos tambem deixamos, ou nao?
Voltando as minhas gavetas, ao porao das minhas lembrancas.
Eu estava aqui,  organizando antigos arquivos e revirando assim o passado.
Encontrei umas fotos nao tao antigas, mas me detive olhando para pessoas que nao vejo ha muitos anos. Algumas me trouxeram boas recordacoes, outras porem tristes e decepcionantes. Parei com tudo...
Obsevei longamente aquela fotografia. Deleto ou nao? (vivo na era digital)- deletar corre sempre o risco de perder, entao mando pra lixeira. Pode ser que depois eu queira reconduzir o arquivo ao seu lugar anterior... ou nao.
Sempre ocorre essa duvida, nao é mesmo?
Decidi que aquilo que imediatamente eu nao deletava, ficaria no mesmo lugar por mais algum tempo ate que a vontade de jogar fora fosse totalmente livre e imparcial.
A gente sempre quer jogar fora aquilo que magoou ou que ainda doi, um pequeno prego incomodando no coracao. Mas se desfazer daquilo que doi, com a intensao de parar a dor, é a mesma coisa de tomar um analgesico sem tratar a doenca. Um belo dia a dor volta a incomodar mesmo que a chave da lembranca tenha sido exterminada de nossa vida.
Entao fiquei ali, olhando aquela fotografia, deixando me alimentar de toda dor que eu pudesse sentir. Perece masoquismo! Mas nao é.
Encarar a dor de frente. Encarar a magoa de frente. Ficar ali com ela e buscar suas causas, onde esta o erro, por que ainda sofremos, o que nos faz sofrer... por que ainda sofremos se tudo ja passou, ... isso! Por que eu ainda sofro com essa lembranca se tudo ja passou.
Por que fico aqui revivendo o fato com a mesma magoa, com o mesmo sentimento?
Se essa pessoa que me causa sofrimento estivesse aqui agora, diante de mim?! E tivesse muito a dizer, coisas que nunca ouvi ou nunca quis ouvir. Ou se o fato que me doi nao aconteceu realmente desse jeito?
Desculpar- é tirar a culpa, des- prefixo indicador de negacao; negar a culpa, desculpar!
Nao quero desculpar ninguem, muito menos quem me causou tanto sofrimento. O que eu quero é nao sofrer mais. Quero vencer a magoa que doi e incomoda. Quero sair do desvio do passado, do rancor, do reviver e revirar as memorias da lembranca e sofrer novamente. Eu quero me dar o direito de recordar do mesmo fato, sem dor, sem incomodo nenhum. Quero ver com outros olhos, com os olhos do sentimento, do coracao.
Entao eu nao vou desculpar. Nao posso negar a culpa de ninguem, assim como nao posso negar a minha propria. Ou fomos causadores do dano ou nao. E nao deixe nenhum filosofo do Direito entrar na conversa que ele escreve um compendio sobre a culpabilidade.
Eu quero me perdoar por me magoar tanto. Eu quero perdoar quem me causou tanto dando. Eu quero apenas per-do-ar!
Eu nao sei como perdoar. Desde pequenina escuto esta frase:”Voce deve perdoar seu irmao!”- porem ninguem nunca conseguiu me explicar como é que a gente perdoa.
Ja notaram que ninguem consegue explicar sentimento nenhum? Como é amar? Como é perdoar? Como é se apaixonar? Como é se desapaixonar?(isso existe?) Ninguem consegue ensinar a ninguem como sentir? Nao se aprende a sentir. A gente sente ou nao.
Nao sei como é perdoar. Entao vou ficar olhando essa foto ate nao sentir mais dor. Vou consumir o veneno em pequenas doses ate ficar totalmente curada.
...
A faxina foi parcialmente terminada e depois de tres dias retornei ao mesmo ponto.
Durante todo tempo fiquei remexendo a dor, abrindo a ferida, verificando se ainda sangrava ou se o tempo havia curado tudo por dentro.
O tempo!
Foi com vontade e me dando tempo para encarar a dor, a magoa de frente que ela parou de doer.
Desisti de deletar o arquivo por que doia.
Deletei por que eu quero o espaco livre para novas fotos. Aquela foto nao me interessa mais. Aquela lembranca nao me incomoda e nao me interessa mais.
Será isso perdao?
Nao sei.
Verdade é que deletei a magoa do meu coracao. E fiz diversos testes antes de deletar o arquivo.
Foi um grande alivio!

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