terça-feira, 5 de junho de 2012

A rede e a convalecencia





Estive esses ultimos cinco dias de cama… ou quase.
Eu nunca consigo ficar realmente de cama; foram só os dois primeiros que nao tinha condicoes mesmo de me levantar... mas .... mesmo assim nao me entreguei totalmente: fiquei na cadeira, no sofa... na cadeira novamente.
Sabe, nessa horas eu morro de saudade da minha rede! Como é bom ficar deitada numa rede, principalmente quando se esta doente. A rede é tao aconchegante, voce se vira de um lado para outro com facilidade, parece que esta nos bracos de alguem que te ama muito... é mesmo, rede parece colo de mae. Como preciso de uma rede nestes dias de febre alta, dores pelo corpo, zumbido nos “zuvido” e dores infinitas. Entao pra driblar o frio – provocado muitas vezes pela febre – a gente vai enchendo a rede com aqueles lencois velhos, macios, para nos tao cheirosos, mesmo que para os outros nem tanto. Tudo vai ficando tao aconcegante... mais um paninho debaixo da nuca... um lencol especial para os pes; quando a gente se da conta tem mais lencol do que espaco para nos mesmos. Eles nao conseguem ficar dentro da rede, a todo momento tem um no chao ou outro pendurado. E se a gente tem bichinho em casa, vai ta ali, debaixo da rede para nos confortar, com aquela cumplicidade companheira, sendo o primeiro a ser pisado numa saida rapida de emergencia rumo ao sanitario... local que so vamos nas ultimas, pois voltamos a sermos criancas no aconchego materno da rede. Dai so saimos nas emergencias das emegencias, quando o senso de adulto nos avisa: “Voce ta bem grandinho pra isso!”
Para se tomar um copo de qualquer liquido, quente ou gelado, é um verdadeiro suplício. Alem do gosto de papel velho, cabo de guarda-chuva que impregna todo e qualquer alimento solido... a gente comeca a olhar para o prato e lembrar da tortura que sera encolhir aqueles pedacinhos de macarrao... com carne moida... ou simplesmente a sopinha... ai, ai. Vai enfrentando, no inicio, com a dignidade de um cavaleiro da tavola redonda, enquanto vai ingerindo o essencial para nao morrer de inanicao... depois faz aquela cara de nojo misturado com desespero mesmo e afasta o malfeitor, o prato, que ja cheira ruim, tem gosto ruim e agride nossa garganta: parece mais macarronada de arame farpado! Jesus me acode! Isso tudo foi apenas delirio meu, gente, pois se eu quisesse comer alguma coisa, tinha que ainda preparar... e para o outro pequeno tambem!
Ainda bem que o estoque de leite e nescau aqui de casa nao o deixou falecer faminto diante da famigerada televisao... mas que ajuda, ajuda.
Enquanto eu padecia e sobrevivia a custa de anti-termais e antibioticos, ele se deliciava com nescau gelado, biscoito champanhe, pao com marmelada, frankfurter com ketchup, biscoito de caramelo e quando muito, um schinkenparisen quentinho. Aff! Eu doente e o filhote agradecendo.
Ele foi tao gentil... mama eu vou fechar a porta, pra voce descansar, tá? – desconfiei... levantei a duras penas e ... intuicao de mae nao se engana, mesmo embotada... dois quilos de sorvete à sua frente, no tapete da sala, se deliciando com o Tom e Jerry!!!!!
Cinco dias de ferias total... agora vou levar quantos meses para faze-lo voltar aos eixos?
E o cerebro? Esse pifou! Fechou pra balanco! O tico e o teco se perderam totalmente no emaranhado de sonhos e pesadelos, entre um abrir de olho e outro. Dor de cabeca.
Tentei, mas o reumatismo mental nao me deixou ler, escrever, pensar, medidar... nada. Meu querido cerebro desligou, saiu de ferias, fechou a producao de pensamentos e muito mais de entendimento. Lembrancas?! Essas foram totalmente esquecidas.
E tudo por causa de uns quinze minutos de chuva! Inacreditavel, ne?
Continuo aqui, agora acabando meus intestinos com penicilina... vamos ver se a medica acerta desta vez! Ela vai acabar com a infeccao na garganta, ah vai, e comigo tambem. Mas depois ela trata do resto: estomago, pancreas, intestino... e quem vai cuidar da minha depressao, da minha saudade de uma rede na varanda, de passeiar na beira da praia, ... sal... acho que vou suspender tudo e fazer gargarejo de sal grosso com vinagre e limao. Santo remedio da minha mae, aprendido com a mae dela e assim vai ate os mais remotos ancestrais pre-historicos..... afff. Depois tomar um banho de sal grosso tambem... ajuda né?
Pois é... gripe se trata com cachaca com limao, dor de garganta, limao com vinagre e sal, dor de estomago, cha de afavaca, diarreia, cha da folha da goiabeira... e vai por ai. Amigos medicos que me perdoem... mais vale a fe do que a oracao!
Antes que as engrenagens travem novamente, vou pra minha cadeira do Ikea, confortavel, transformada em rede na minha imaginacao!

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